Ditadura e seus resquícios: um tema em permanente atualidade

Por Juliana Oliveira em 20.05.2016

Ainda que alguns desavisados questionem, 'este tema não só é atual, como se atualiza sempre que um camburão sobe a favela'. Foi com esta frase que Jean Costa, Coordenador de Projetos do Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis (CDDH) iniciou as falas da última edição do 'Diálogos CDDH, que abordou o papel das comissões da verdade no Brasil', no último dia 19/05, em Petrópolis.

Tendo como proposta a construção coletiva e pedagógica do conhecimento o evento, realizado pelo CDDH, promoveu o diálogo iniciado entre o representante do Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro (GTNM-RJ), o jornalista João Costa e o sociólogo e historiador, presidente da Comissão Municipal da Verdade de Petrópolis, Eduardo Stotz. Também eram aguardadas as presenças de Nandine Borges, ex-presidente da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro (CEV-Rio) e Victória Grabois, presidente do GTNM-RJ, que não puderam comparecer, mas justificaram a ausência.

O debate

João citou ainda, a importância da parceria estabelecida há anos com o CDDH, que rendeu, inclusive, a campanha de mobilização pela desapropriação da Casa da Morte em Petrópolis, iniciada em 2010, com o objetivo de construir no local um lugar de memória que seja gerido pela sociedade. Para João a criação da CNV nada mais foi do que uma resposta às condenações feitas pela Corte Interamericana de Direitos Humanos,  e hoje é necessário que haja um redimensionamento das comissões.

Já Eduardo Stotz, presidente da CMV de Petrópolis, considera uma conquista a criação da comissão municipal, em 2015, no apagar das luzes da estadual, e afirma que ela já está rendendo frutos para a luta, tais como a adesão da Semana da Memória, Verdade e Justiça no calendário de eventos oficial da cidade e o alcance, ainda que indireto, de aproximadamente 5 mil pessoas, na primeira edição do evento .“ A comissão foi instituída para averiguar crimes e também esclarecer para a população não só sobre eles, mas sobre os processos, as instituições que geraram esses crimes. A perspectiva é histórica, porque ela é política”,revelou. O presidente da CMV aproveitou o momento para louvar a participação do Coro Nheengarecoporanga (do CDDH) nos eventos promovidos pela comissão e pedir mais apoio ao CDDH, reiterando o convite para que a organização integre a CMV.

O vereador Anderson Juliano (PT), responsável por ter enviado a proposta de criação da CMV na câmara, também compareceu ao ‘Diálogos’ e aproveitou a ocasião para alertar para a necessidade de se mobilizar os sindicatos diante da realidade atual.

 

Linhas transversais

A partir da discussão sobre o trabalho desenvolvido pelas comissões no país, temas transversais como o atual cenário político brasileiro e a extinção do Ministério da Cultura- MINC vieram à tona e permearam a fala dos presentes.

Nesta perspectiva o representante do GTNMRJ lamentou as atuais propostas modificação no âmbito da cultura, desde que Michel Temer assumiu a Presidência da República de forma interina em 12 de maio de 2016. “ É o nervo central da cultura que transforma as relações de produção, faz com que o movimento sindical reduza a exploração do capital... O controle da construção do pensamento mata muito mais do que uma classe social. Mata o ânimo do poder deliberativo... Por isso chamamos de violência simbólica o golpe que está instituído hoje no Estado Brasileiro”, pontou João Costa.

Sob o ponto de vista de que os movimentos sociais são a vanguarda do atual cenário de mobilização popular no país, assim como ocorreu em 2013, João Costa, considera que é preciso analisar mais precisamente o conteúdo dos próprios erros e acertos. “Nós não podemos perder de vista que a luta da sociedade é uma luta de classes. Trata-se hoje de como se reerguer essa sociedade”.

O coordenador de Projeto do CDDH, Jean Costa é ainda mais enfático no que consiste à necessidade de  reconstruir posicionamentos constantemente, diante da realidade em mudança diária. “Depois do que foi dito aqui hoje, quem tiver juízo não irá dormir... Essa é uma discussão que precisa ser debatida em toda sociedade, seja ela engajada ou não.”, finalizou Jean.