Educação Popular e saúde: formação integra equipe do CDDH e alunos da Fase

 

 

Por Juliana Oliveira

"Qual a relação do que a equipe do CDDH fala sobre Educação Popular e a realidade que vocês encontram no PSF  (Posto de Saúde da Família)?" Foi com esta provocação que o Coordenador de Projetos Especiais da Faculdade de Medicina de Petrópolis (FMP/Fase), Ricardo Tammela, estimulou a participação dos alunos de enfermagem e medicina, no processo de formação em Educação Popular, que aconteceu na última sexta-feira (07/08) no campus da Barão, com equipes de projetos do Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis (CDDH).

A proposta era compartilhar a atividade de formação que já acontece internamente na organização, com os alunos da área de saúde, que vivenciam a realidade do trabalho de Saúde de Família e dos atendimentos feitos em comunidades das periferias de Petrópolis. Isto porque, segundo Rafael Coelho Rodrigues, Membro da Coordenação Executiva do CDDH, é difícil pensar o próprio Sistema Único de Saúde (SUS) sem considerar a Educação Popular. "Está no imaginário popular que o pobre é responsável pela sua pobreza... Discutir Educação Popular hoje é algo que tem que ser muito problematizado...É algo que tem que ser revolucionário na nossa vida", lembrou Rafael.

Após divulgarem o vínculo histórico do surgimento do CDDH e do bairro Madame Machado,  onde os alunos realizam trabalhos nos mecanismos de saúde locais, a equipe realizou uma dinâmica de sensibilização com a leitura- compartilhada de poesias e os educadores presentes falaram sobre o conceito e a prática da forma de educação em questão. "A educação popular tem sido utilizada na forma de conhecimento, para legitimar a 'nossa' verdade como a melhor, enquanto deveria ter como meta uma utopia social", disse Jean Costa, educador popular do projeto ArticulAção (CDDH).

Ansiosos por  ajudar a comunidade, houve aluno que perguntasse diretamente o que poderia fazer para contribuir, revelando os sentimentos que de frustração e vontade...

No diálogo sobre os próprios programas e mecanismos de saúde pública que atualmente são nomeados com o verbo humanizar, algumas alunas de medicina se questionavam sobre em que momento o homem perdeu seu "título" de humano. "O próprio aluno de medicina vai se perdendo no processo...Não é certo se desumanizar, mas muitas vezes acontece...Parece que a gente perdeu o compromisso com o social", desabafou a aluna Saádia Teixeira, do segundo período de medicina.

No bairro de Madame Machado, que ficou nacionalmente conhecido por estar próximo à área do Vale do Cuiabá, região atingida pelos desastres socioambientais de 2011, o trabalho em rede é mais organizado do que em muitas outras comunidade das periferias do município. Lá ocorrem reuniões mensais, com  a participação de representantes de equipamentos de saúde do município, de igrejas e movimentos religiosos locais, além de membros de associações de moradores, de ONG´s e de projetos sociais, mas  a carência da participação popular ainda é o principal problema.  A educação popular prevê uma construção coletiva e é este o sentido do trabalho em rede. De acordo com Jean Costa (CDDH), é na articulação dos saberes que iremos construir uma nova sociedade. "Seria impossível criar esses espaços antes de iniciar um trabalho na comunidade, nas escolas...".

Além de falarem sobre as principais demandas sociais na comunidade, como a grande quantidade de relatos de violência sexual e gravidez na adolescência, o grupo colocou na roda, a reflexão sobre a necessidade de se politizar e resgatar a sensibilidade, anotações que talvez estarão nos diários de campo (portfólio  de registro das experiências vividas) de cada equipe presente. "Muitas vezes o médico se coloca num pedestal... Mas na saúde da família tem que se ter essa capacidade de se colocar no lugar do outro. Não adianta só passar o remédio para a pessoa e esperar que ela melhore...", acrescentou Saádia.

É no aprofundamento provocado pelo encontro de formação que surge o incômodo, quase como uma certeza de que algo precisa mudar. Mas a sociedade atual prega valores tão associados à pressa, gerência e eficiência, que considerar as incertezas e o tempo do outro parece um erro.  É aí que mora a revolução proposta pela educação popular, no 'desformar-se'.