Em Situação de Rua

Por Juliana Oliveira em  12/2013.

O Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis (CDDH) realiza a cada ano, em média, 700 atendimentos a pessoas em situação de rua. Mas o trabalho de assistência a este público já foi muito mais abrangente e hoje se resume, apenas, ao oferecimento de serviço de higiene pessoal (banho) e encaminhamento para outros locais, como o abrigo municipal, em Petrópolis.

Em 2004, o atendimento a essas pessoas era o ‘forte da casa’, com as ações previstas no projeto Pão e Beleza, que oferecia aos excluídos sócio- economicamente acesso a uma rede de serviços sócio-educativos, que incluíam atendimento social, apoio  psicológico, assessoria jurídica, cultura, lazer, oficinas pedagógicas, além de refeições nutritivas e um espaço para serviços de higiene pessoal, corte de cabelo e barba.

O projeto funcionava através de parcerias estabelecidas ao longo dos anos, mas, em 2012, chegou ao fim o último financiamento que arcava com os custos do projeto. Desde então, as ações previstas para o Pão e Beleza estão suspensas. Em Petrópolis existe apenas um abrigo municipal (NIS), administrado pela SETRAC ( Secretaria de Trabalho, Assistência Social e Cidadania), mas, segundo Carla Fernandez, coordenadora do Centro de Referência em Direitos Humanos do Rio de Janeiro (CRDH-RJ), não é suficiente para atender à realidade de Petrópolis, completa.

Em 2013, as mortes de pessoas em situação de rua no município de Petrópolis chamaram, ainda mais, a atenção da equipe do CDDH Petrópolis para a necessidade de um trabalho mais abrangente. “É uma preocupação que nós temos, pois essas pessoas acabam saindo do abrigo por algum motivo. Além disso, não existem  Centros de Referência para População de Rua, os chamados ‘Centros-POP´ no município. Espero que, quando forem criados, o atendimento a essas pessoas passe a ser mais integrado com outras políticas, pois a proposta destes Centros é realizar ações que estimulem a autonomia e participação social”, afirma a coordenadora.

O CDDH Petrópolis conta hoje com um Educador Popular, dedicado especificamente ao atendimento às pessoas em situação de rua. Sidnei Hãn trabalha há seis anos na organização e acompanhou diversas ações da organização para atender às demandas destas pessoas em situação de vulnerabilidade. “Na época em que existia o Pão e Beleza, eu trabalhava como voluntário e me identifiquei com a causa. Eu acredito no trabalho e por isso continuei. O mais difícil, que é estabelecer o vínculo com essas pessoas, o CDDH já faz. Mas quando chega o momento de atender às dificuldades concretas de saúde e de família, a gente não tem como atuar. Fazemos trabalhos assistenciais através da equipe do CRDH- RJ, que hoje são fundamentais.”, afirma Sidnei.

‘Preguiçoso’, ‘folgado’ e ‘sem vergonha’: estes são alguns dos termos pelos quais  as pessoas em situação de rua costumam ser chamadas por parte da sociedade. Mas o que será que leva a maioria a esta situação? Os motivos são diversos e vão da dependência química e transtornos mentais ao desemprego e problemas de relacionamento familiar. 

Entre as principais demandas destas pessoas, quando procuram o CDDH– Petrópolis, estão a comida, o trabalho e o auxílio à saúde. Segundo Sidnei, apesar da comida ser sempre a primeira solicitação é também, a mais fácil de ser solucionada, já que é comum pessoas doarem alimento pelas ruas. “Muitos pedem emprego também, mas a maioria tem problemas com álcool ou limitações mentais. Fazemos atendimentos, mas várias questões, principalmente as relacionadas à saúde, vão além do serviço que o CDDH pode oferecer hoje”, comenta o Educador. De acordo com integrantes da organização, a falta de continuidade e de um trabalho multidisciplinar na cidade, por vezes, compromete as  ações já realizadas.    

Isto é, uma organização passa o caso para outra e, neste processo, as dificuldades de cada pessoa adquirem proporções ainda maiores.Segundo Sidnei, a necessidade de um trabalho contínuo é latente. “O que eu vejo é que não há um trabalho que vai até o final. Um governo, às vezes, começa um bom trabalho: depois de quatro anos entra outro governo, que interrompe tudo. Por isso que nós, aqui no CDDH, fazemos questão de oferecer cuidado e ter cuidado no processo de atendimento”. Ainda de acordo com o educador, é importante realizar um trabalho personalizado, e toda abordagem deve ser estratégica.  Em alguns casos, sugerir internação, por exemplo, pode ser a forma mais rápida de perder o contato com o indivíduo. “Para muitos o abrigo é a melhor opção, para outros não é. Algumas vezes, nós conseguimos achar a família, mas isso nem sempre é a solução”, acrescenta Sidnei.

No período de final de ano é possível observar uma diminuição da procura pelos serviços do CDDH- Petrópolis, voltados para a população em situação de rua. De acordo com Sidnei, essas pessoas deixam de vir por algum tempo, porque conseguem trabalhos temporários, como os chamados ‘flanelinhas’. “Eles ficam na rua direto, com medo de perder uma oportunidade”, frisa o Educador. É o momento de repensar as estratégias de ação e procurar parcerias.

Sidnei conta que já viu muitos casos de recuperação, a partir do trabalho realizado pela organização. São eles que justificam  a referência que o CDDH representa hoje, para esta população. “Às vezes eu sinto que estamos enxugando gelo, mas se conseguimos salvar uma pessoa já vale a pena.  Se eu, que já estou fazendo tão pouco, parar, imagina como vai ficar?”, finaliza Sidnei.

Fonte: texto publicado na edição  05 do Boletim do CRDH-RJ