O poder da juventude mobilizada

Por Juliana Oliveira em 23.05.2016

Desde o final de 2015 jovens de todo o país dão uma lição de resistência em plena crise da democracia no Brasil

O movimento de ocupação nas escolas teve início no final do ano passado em São Paulo, após o governador do estado, Geraldo Alckmin (PSDB) anunciar o plano de ‘reorganização escolar’ que iria acabar com mais de 90 instituições de ensino na capital. Esta ação gerou a mobilização de estudantes em várias regiões do país, em especial nos estados de Goiás e do Rio de Janeiro.

Em poucas semanas os jovens ocuparam dezenas de escolas da capital, chegando à máxima de 200. E, de acordo com informações da secretaria de educação do Rio de Janeiro, no início de maio de 2016 mais de 60 escolas já estavam ocupadas na cidade.

Eles falam muito e falam alto... Talvez por isto Alckmin reconheceu, durante discurso de repúdio às ocupações: ‘ ... Há uma nítida ação política’. Contudo, o governador enfatizou na época, que o espaço público não pertencem a eles, aos que resistiam, e a ação policial era clara quanto a isso. Na manhã do último sábado, 21/05, a polícia do Rio de Janeiro realizou uma ação de desocupação da secretaria de educação, onde 20 jovens permaneciam, após reunião com a o atual secretário de educação, Wagner Victer.

As demandas são diversas e as carências também, mas, dentre todas as exigências, uma chama a atenção: a luta por diálogo, que é respondida com o apoio dos movimentos sociais e de diversos artistas, mas, sobretudo, com a repressão policial.

As mobilizações juvenis começaram cinco meses antes do processo de impeachment que acabou por retirar, em 12 de abril, a presidente Dilma Rousseff do poder. Com esta realidade, muitos movimentos sociais questionam a legitimidade do ato que afastoua líder eleita por voto popular, classificando como golpe a ação de impeachment com base em crime de responsabilidade.

Entre ocupações e desocupações é possível identificar que, talvez, esteja aí o diferencial da força da juventude: essa rebeldia que impulsiona a mobilização, a disposição que fortalece a resistência.

 

De protagonista a criminalizado

No último dia 12/05 o projeto ArticulAção, gerido pelo Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis (CDDH), realizou o IV Fórum sobre a Criminalização da Juventude, em que reuniu representantes de diversas instâncias para dialogar sobre a temática central e questões transversais.

Vivendo há dias em uma ocupação na Escola Paulo Freire, no Rio de Janeiro, a militante e moradora da comunidade do Jacarezinho, Ana Paula Grecco, participou do evento e se colocoupreocupada com a percepção do jovem sobre o local de ensino. “A escola deveria ser o lugar onde você aprende que não é com o tráfico que você combate o sistema, aliás, ele foi criado pelo próprio sistema”. Mc Julião, companheiro de Ana, que cantou ao lado do filho, Mc Papá, durante o Fórum,falou sobre a experiência de vida na periferia e o trabalho diário de lutar em conjunto. Em uma das letras, Julião mandava o recado para o público: ‘ Eu quero solução. Mas sem união o sangue da favela derrama no chão’.

Na contramão das lutas estudantis está, também, a atual política criminal, naturalizada na sociedade, que tem como um dos alvos, justamente a juventude (em especial pobre, negra e moradora de periferias. Neste sentido o ex-coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ), Íbis Pereira, também presente no evento, é claro quando afirma que ‘não querem ver preto e pobre na faculdade’ e vai além quando aborda o sistema prisional: “Estado Democrático de Direito não encarcera por qualquer bobagem... Essas pessoas têm idade, faixa etária e cor. Se o poder punitivo está se manifestando desse jeito, é de política criminal que a gente está falando. O poder punitivo não atua de qualquer maneira, é histórico”.

E aqui vale lembrar a morte de 5 jovens baleados após a PM do Rio de Janeiro disparar 111 tiros contra o carro em que eles estavam. De acordo com Íbis Pereira o projeto de extermínio é uma realidade cruel, visto que o perfil da polícia é o mesmo. “A política criminal que a gente tem está fundada no confronto bélico(...) É pobre matando pobre”, conta.

Política e educação são dois lados de uma só moeda. Pelo menos é essa a visão da palestrante Graziela Sereno, do Mecanismo de Combate à tortura da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), que colocou o protagonismo juvenil como um dos mais legítimos movimentos atuais e lamenta: “Esse espaço de formação política não existe... A própria escola não fomenta a possibilidade do aluno se ver como ator político na sociedade”.