Seis anos de descaso e sofrimento

Em 2011, precisamente há 06 anos, famílias da Região Serrana sofreram a maior tragédia “climática” do Brasil.  Muitos foram os afetados, de diferentes classes sociais, nos morros ou margens de rio.  Foi uma comoção internacional.  Chegaram muitos para auxiliar as famílias e apoiar a manutenção da vida.    A tragédia se manteve viva na memória dos brasileiros enquanto a mídia conseguiu encontrar nela os temas de relevância para garantir o objetivo único de ibope.
    Após o “boom” da mídia, esta tragédia se mantém apenas na vida daquelas e daqueles que tiveram suas histórias apagadas.  Se mantém para as pessoas que mudaram tudo o que sabiam de si para continuar a viver dentro de um cenário sempre incerto e violador de direitos.   Os que tinham melhores condições financeiras, por intermédio de advogados particulares e outros meios próprios, garantiram um “piscar de olhos” do Estado na indenização das moradias atingidas conseguindo (ainda que de maneira injusta – considerada por eles) garantir a retomada da vida com estrutura próxima à que viviam antes do ocorrido, embora o sentimento de perda e os traumas da tragédia não se apaguem.  Para os mais pobres restou promessa e negligência. Sem condições psicológicas para optar pela melhor alternativa para suas vidas, foram deixadas a estes apenas três possibilidades (Tipo Programa de Televisão: Você decide!): compra assistida, indenização ou realocação.    O final decidido foi escolhido, porém, a escolha não finalizou a situação. Continua o capítulo seguinte...  
    Muito recurso chegou para a solução do problema.  Das mais variadas fontes.  Porém, pouco se fez para aqueles e aquelas que tudo perderam.   A “política” do aluguel social (provisória) se torna a única política habitacional para estas famílias, tomando aspecto permanente, dentro de um cenário violador de atrasos, despejos, cobranças por parte dos proprietários dos imóveis e ainda a retirada de recursos financeiros das famílias para complementar o valor.
    As cidades atingidas se organizaram, manifestaram seu repúdio ao descaso unidas ou separadamente, porém, de efetivo, nada foi feito em nenhuma delas.   Em Teresópolis, com obras quase prontas, as famílias olham da janela das suas casas em  área de risco e do aluguel social, o sonho da moradia digna, sem saber quando poderão tomar contato com esta realidade.   Em Petrópolis, a promessa de início e retomada das obras é refeita diariamente, sem nenhuma informação de prazo para conclusão.  Pelo menos Friburgo, como presente de Natal, recebeu moradias em final de 2016, para as famílias atingidas se mudarem agora, em janeiro, após 06 anos.
    A nós, Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis, que assessoramos as famílias do Vale do Cuiabá antes mesmo do ocorrido e acompanhamos a situação em Teresópolis e Friburgo resta a esperança e a certeza de que as famílias não desistirão de lutar pelos seus direitos.  
    Desastres em Petrópolis e Região Serrana não são ambientais ou climáticos – são sociais. A falta de investimentos em moradia para a população que depende das encostas e das áreas de risco é intencional.  O problema habitacional é sempre promessa eleitoral. Garantir esta necessidade atrai atenção e votos e por isso o problema “NÃO PODE SER RESOLVIDO”.  À população, resta esperar pela próxima chuva e se apegar à fé de cada um porque, somente a fé segura a casa.
    Para aqueles em que a casa caiu, a fé também é o que os mantém firmes, na luta, em busca de vida melhor diante de tanta tragédia.  Resta conviver com a fé porque a história, os parentes, os amigos, os documentos e a esperança são retirados dia a dia com a falta de trabalho político sério e competente.
    Que tenhamos o que comemorar em janeiro de 2018!